Palavras

Se as expressões humanas estão entre as características que o diferencia entre as espécies, a palavra como expressão da fala ocupa um lugar central no repertório do indivíduo e das culturas.

É com a palavra que se trava a luta mais vã, como diz Drummond, que prossegue afirmando que, no entanto, lutamos, mal rompe a manhã. É seu uno e tão vário metal.

Luto a luta vã porque incerta, pela dificuldade em se transmitir e compreender o que, por fim, diz a palavra.

A palavra diz sempre algo mais para um, e ainda mais, para outro. É no outro que a palavra completa, em seu dialeto para mim de todo desconhecido, o que pode levar à angústia da questão: “por que falo”?

Distribuídas pelos diversos idiomas com seus versos e prosas, a palavra dita em linguagem não pátria não se compromete tanto quanto o idioma materno, com o qual, afinal, se cuida e é cuidado.

Uma declaração do tipo “Je t’aime” em francês por um falante brasileiro não carrega o afeto correspondente do amor no idioma pátrio para um ouvinte não francês. É por isso que precisamos, todos, de língua própria, para que também os afetos se transmitam por meio da fala, para que seja investida de sentido. Não garante compreensão, porque a comunicação é matéria do campo do impossível, mas garante sentimento.

A palavra certa talvez fosse a que transmitiria, sempre, algum nível de sentido afetivo desejado.

Não à toa, Drummond declara “luto corpo a corpo, luto todo o tempo, sem maior proveito que o da caça ao vento”.

No entanto, não nos enganemos. Ao contrário da luta, e a despeito de quanto luto, nenhuma palavra é vã.

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