Instrumental

Tocar um instrumento está entre as atividades mais profundas do ser.

Não menos porque a razão que faz com que se dedique horas, meses, anos à prática do instrumento, às vezes toda uma vida, seja muitas vezes totalmente desconhecida do próprio artista.

É possível refletir sobre se, talvez, os grandes artistas nunca saibam de fato o que fazem e os motivos que sustentam esse fazer. Será possível nomear as grandes obras de arte? Talvez existam para a contemplação, mais do que para a razão.

Também é digna de nota a observação de que todo grande artista trabalha por sua identidade musical, conscientemente ou não. O que o distingue na arte é algo de profundamente próprio, impassível de imitação.

Aquele som próprio, aquela forma de tocar, compõe-se a partir daquilo que constitui o próprio artista, embora seja tarefa dificílima as associações entre biografia e arte, ou entre arte e o que se poderia ter por personalidade. De toda forma, o que apresento tocando um instrumento, em que contextos e como se dá essa evolução no tempo fala, fundamentalmente, sobre quem sou.

As escolas de música, por sua vez, pouco favorecem o desenvolvimento das autoralidades no artista, visto que o que se ensina está sempre, em grande medida, determinado, sobra pouco espaço para a criatividade.

Trabalhar o próprio som envolve muita coragem e assertividade, porque do outro lado existe um outro para ouvir. Caímos aqui no dilema entre um fazer para si e um fazer para o outro.

Arrisco-me a dizer que as grandes obras de arte simplesmente acontecem desassociadas da intenção em relação ao outro, e a identificação causada naquele que aprecia se dá por via indireta, quando o artista alcançou algo tão profundo de si, sem o saber, que o público se espelha nesse desejo inconsciente de saber de si e recebe aquela obra como um incentivo, como se ecoando uma poderosa mensagem: “se queres ser como sou, segue o teu próprio caminho”.

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